 e uma
barba cor de ferrugem. Sor Jaime Lannister parecia-se mais
com os cavaleiros das histórias e também pertencia à Guarda
do Rei, mas Robb dizia que ele tinha matado o velho rei louco
e já não contava. O maior cavaleiro vivo era Sor Barristan
Selmy, Barristan, o Ousado, o Senhor Comandante da
Guarda do Rei. O pai prometera que conheceriam Sor
Barristan quando chegassem a Porto Real, e Bran marcara a
passagem dos dias na parede do quarto, ansioso por partir,
por ver um mundo com que só sonhara e começar uma vida
que quase nem conseguia imaginar.
Mas agora que o último dia se aproximava, repentinamente
Bran sentia-se perdido. Winterfell era a única casa que
conhecera. O pai dissera-lhe que devia fazer hoje as suas
despedidas, e ele tentou. Depois de os caçadores terem
partido, vagueou pelo castelo com o lobo a seu lado,
tencionando visitar aqueles que ficariam ali, a Velha Ama e o
cozinheiro Gage, Mikken na sua forja, Hodor, o cavalariço
que sorria tanto, cuidava de seu pônei e nunca dizia nada que
não fosse "Hodor"; o homem nos jardins de vidro que lhe
dava uma amora silvestre sempre que ia visitá-lo...
Mas foi inútil. Dirigiu-se primeiro ao estábulo e viu seu pônei
na baia, mas já não era seu pônei, pois teria um cavalo
verdadeiro e deixaria o pônei para trás, e de repente quis
apenas sentar e chorar, Virou-se e fugiu dali antes que Hodor
e os outros moços da estrebaria lhe vissem as lágrimas nos
olhos. Foi o fim das despedidas. Em lugar delas, passou a
manhã sozinho no bosque sagrado, tentando sem sucesso
ensinar o lobo a buscar um pedaço de pau. O lobinho era mais
inteligente que qualquer dos cães no canil do pai, e Bran
juraria que entendia cada palavra que lhe era dita, mas
mostrava muito pouco interesse em perseguir pedaços de pau.
Ainda andava à procura de um nome. Robb chamara ao seu
cão Vento Cinzento porque ele corria muito depressa. Sansa
chamara Lady ao seu, e Arya dera ao seu o nome de uma
rainha qualquer feiticeira das canções, e o pequeno Rickon
chamara ao seu Cão Felpudo, o que Bran julgava ser um
nome bastante estúpido para um lobo gigante. O lobo de Jon,
o branco, chamava-se Fantasma. Bran gostaria de ter
pensado primeiro nesse nome, apesar de seu lobo não ser
branco. Tentara cem nomes ao longo da última quinzena, mas
nenhum lhe parecera ideal.
Por fim, cansou-se do jogo do pau e decidiu escalar. Havia
semanas que não subia à torre quebrada, por causa de tudo o
que acontecera, e aquela poderia ser sua última oportunidade.
Atravessou correndo o bosque sagrado, escolhendo o caminho
mais longo a fim de evitar a lagoa onde crescia a árvore-
coração. Ela sempre o assustara; as árvores não deveriam ter
olhos, pensava Bran, nem folhas que se parecessem com
mãos, O lobo corria junto aos seus calcanhares.
- Fica aqui - disse ao animal na base da árvore sentinela que
crescia ao lado da parede do armeiro. - Deita. Isso. Agora fica.
O lobo fez o que lhe foi ordenado. Bran coçou-o atrás das
orelhas e depois se virou, saltou, agarrou um ramo baixo e
içou-se. Estava no meio da árvore, deslocando-se com
facilidade de ramo em ramo, quando o lobo se pôs em pé e
começou a uivar.
Bran olhou para baixo. O lobo calou-se, olhando-o através
das fendas de seus olhos amarelos. Um estranho arrepio o
atravessou, mas recomeçou a trepar. Uma vez mais o lobo
uivou.
- Quieto - gritou. - Senta. Fica. Você é pior que a minha mãe -
os uivos seguiram-no até o topo da árvore quando, por fim,
saltou para o telhado do armeiro e para fora de vista.
Os telhados de Winterfell eram a segunda casa de Bran. A
mãe dizia frequentemente que ele já era capaz de escalar
antes de aprender a andar. Bran não se lembrava de quando
começara a andar, mas tampouco se lembrava do momento
em que começara a escalar; portanto, supunha que devia ser
verdade.
Para um rapaz, Winterfell era um labirinto de pedra cinzenta,
com paredes, torres, pátios e túneis que se estendiam em
todas as direções. Nas partes mais antigas do castelo, os salões
inclinavam-se para cima e para baixo, de modo que nem era
possível saber ao certo o andar em que se estava. Meistre
Luwin dissera-lhe uma vez que o edifício fora crescendo ao
longo dos séculos como se fosse uma monstruosa árvore de
pedra, com ramos nodosos, grossos e retorcidos, e raízes que
se afundavam profundamente na terra.
Quando saía de baixo dessa espécie de árvore e subia até perto
do céu, Bran conseguia ver todo Winterfell de um relance. E
gostava do aspecto do lugar, estendido à sua frente, apenas
com aves a rodopiar sobre sua cabeça enquanto toda a vida
do castelo prosseguia lá embaixo, Bran podia ficar horas
empoleirado entre as gárgulas sem forma, desgastadas pela
chuva, que matutavam no topo da Primeira Torre,
observando tudo: os homens que se exercitavam com madeira
e aço no pátio, os cozinheiros que cuidavam de suas plantas
no jardim de vidro, cães irrequietos que corriam para um lado
e para outro nos canis, o silêncio do bosque sagrado, as moças
que mexericavam junto ao poço das lavagens. Fazia-o